Texto publicado em 28/09/1999 no especial “2000” (edição 17, pg. 24) do Diário de Pernambuco.

Acima, a primeira tira de Charlie Brown, de 2 de outubro de 1950: apesar do traço pobre, o personagem fracassado foi um sucesso.
“FELICIDADE JAMAIS CRIOU humor. Não há nada engraçado em ser feliz”, disse certa vez, tentando explicar o sucesso, o desenhista nascido em Minneapolis e transformado em celebridade por Charlie Brown, Lucy, Linus Schroeder e o beagle Snoopy. A série deveria ter se chamado “Li’l Folks” (algo como Gente Pequena), mas o poderoso sindicato United Features, ao fechar com Schulz um contrato de distribuição, impôs o título “Peanuts”, inspirado num programa de sucesso da TV.
QUANDO OS PERSONAGENS de “Peanuts” foram escolhidos como símbolo da expedição espacial Apollo X, no fim dos anos 60, já estavam presentes em peças publicitárias, desenhos animados e toda espécie imaginável de produto de consumo. No início dos anos 90, as tiras eram reproduzidas em mais de dois mil jornais pelo mundo – uma penetração comparável à dos personagens de Walt Disney.
ALGUNS CRÍTICOS ACUSAM Charlie Brown e seus amigos de serem falsas crianças, na verdade adultos em miniatura, com preocupações e tiradas que não pertencem ao mundo infanil. Faz sentido, mas não consta que Schulz, a essa altura milionário, esteja muito magoado com tais observações. Trafegando entre o melancólico, o lírico, o filosófico e o irônico, o tom das tiras de Charlie Brown é o de uma reflexão poética sobre a vida, com seus sonhos sempre mais ambiciosos do que nossa capacidade de realizá-los.
UMA HISTÓRIA REAL ilustra bem a cabeça de Schulz. Charlie Brown tenta permanentemente organizar com sua turma um time de beisebol que conduza ao destino de treinador campeão. Seu time perdeu, certa vez, de 40 a 0, placar que deixou indignados muitos leitores americanos, fanáticos pelo esporte. Uma enxurrada de cartas endereçadas a Charles Schulz argumentava que um placar como esse era impossível. O autor respondeu que, lamentavelmente, seu próprio time, no ginásio, fora derrotado por essa contagem. E aproveitou para declarar à maneira de Gustave Flaubert sobre “Madame Bovary” que Charlie Brown era ele mesmo. Ou seja: um adulto.






























